“PUREZA”
Nelci-Rones Pereira de Sousa.
Biblioteca 24 horas. 2016.

Por Arthur de Lacerda*

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Pureza, da autoria do brasileiro Nelci Rones Pereira de Souza, é brilhantemente fundamentado manifesto adamita.

Recorrente ao longo da história do cristianismo, denomina-se de adamismo o entendimento cristão de que a nudez é natural e inocente, e de que o cristão deve praticar o nudismo. Afinal, o próprio deus criou o primeiro campo de nudismo e os seus usuários. Havendo podido criar o traje, não o fez: quis a nudez e não o velamento corporal, nem se compreende porque o cristão deva vexar-se de expor o corpo ou dadas partes dele.

Os adamitas surgiram no século II; ressurgiram no V, com o monge Pelágio, fundador de grupo nudista. No século XII e na África do norte, Joaquim da Flora encabeçou novo surto adamita. Em outros momentos, chamaram-se de begardos, nicolaítas ou adeptos de Satornil, e turlupinos. Estes inspiravam-se nos preceitos de Perronne Dauban, pastor francês de Clussy que, com 15 anos de idade, decidiu viver em pelo. Em grupos mistos, os seus asseclas chegaram a somar três miríades, à volta de 1360, e sofreram excomunhão por heresia.
Na Áustria, os cristocratas inspiravam-se nas idéias de Tolstoi: levavam vida frugal, com leitura da Bíblia, quase ausência de propriedade privada e nudez completa. Extinguiram-se com a primeira guerra mundial. No presente há adamitas nos E.U.A., cujos pastores e fiéis comparecem aos serviços religiosos inteiramente desnudos. Na Europa, é tradicional, há gerações, a cultura do corpo livre (conhecida pela sigla F.K.K., do alemão freiköperkultur) ou livre cultura do corpo, gimnosofia, naturismo ou nudismo. No Brasil há alguns adamitas, como Nelci Pereira de Sousa.

Pureza expõe as passagens da Bíblia em que se observa a presença da nudez ou, pelo menos, o autor assim a interpreta, a exemplo da locução “rasgar as roupas”, que ele entende como sinônimo de desnudar-se. Afirma a nudez de Cristo na cerimônia de lava-pés e a de Pedro, perante Cristo ressurrecto. Esclarece que a proibição de “descobrir a nudez”, aplicada, na Bíblia, a inúmeros parentes próximos do destinatário da injunção, significa “envolver-se sexualmente”, na tradução, aliás, adotada pela Sociedade Bíblica Internacional. Demais, ainda que se cuidasse de probição relativa à nudez, ela se limita aos parentes de até segundo grau e não a terceiros, pelo que a vedação de nudação é limitada e não geral.

O autor, fiel batista, apoda padres e pastores de falsos profetas (locução dele), embusteiros que propalam entendimento eivado da erronia em que se preconiza o indumento como sinal de moralidade, associa-se a nudez com imoralidade, estigmatiza-se o pênis, nega-se a obra divina que é o corpo humano.

Heterodoxo e deliciosamente herético, já não o é tanto, pelo menos para os católicos, à luz do magistério de Carlos Woityla, depois João Paulo II, segundo quem a nudez, em si, é irrelevante e, portanto, insuscetível de censura. Profundamente humano e sensato, Pureza surpreende pela bravura intelectual do seu autor, em arrostar o etos gimnofóbico das igrejas católica e evangélicas, como em demonstrar, com supino argumentário, a inocência da nudez, sentido em que, malgrado a sua base teológica, restaura a mentalidade greco-romana, que no desnudamento dos seus deuses e imperadores representava a inocência e a beleza: malícia e pudor, combinação da nudez com a sexualidade, reprovação de ambas, encarnam tradições perversas do cristianismo que, neste capítulo, aderiu ao dualismo persa, que Agostinho de Hipona doutrinou na forma de repúdio do corpo e da sexualidade, que o papa Gregório I corroborou, que o concílio de Trento reiterou pela proibição explícita da nudez, que os jesuítas alastraram e que se inveterou no etos dos brasileiros, máxime dos hoje mais velhos e dos evangélicos. Há verdadeira pertinácia nudofóbica nas igrejas e insistência delas na sobrevalorização do velamento do corpo como expressão de moralidade, princípio que Pureza objeta.

Sem contemporizações, o autor examina passagens dos Velho e Novo Testamento, e do Alcorão, a propósito da nudez. Identifica os mentores do etos que a recusa e que fomenta a malícia, cuja responsabilidade esquadrinha, por ordem de gravidade: os caciques religiosos, os pais, as mulheres, os homens, os meios de comunicação, os operadores da justiça, os professores e os governos, a todos os quais exorta a reverem as suas pregações, atitudes, reações, práticas profissionais, conteúdos televisivos, métodos educativos e pedagógicos, e ações públicas.

Nelci Rones Pereira de Sousa é escrupuloso na revista das passagens dos livros religiosos, acertadíssimo no diagnóstico da parcela de culpa dos responsáveis que identifica, sábio nas ponderações que lhes dirige e irretocável no seu diagnóstico de que, na nossa sociedade, há malícia desnecessária ao invés de pureza.

Na sua semântica, pureza significa ausência de vergonha do próprio corpo, de constância de pensamentos sexuais (notadamente perante nus), de desconfiança mútua das pessoas em geral e presença de atitudes voltadas ao bem alheio.

Pereira de Sousa increpa a mentalidade machista dos homens brasileiros, a sujeição feminina à opressão dos trajes e aos padrões de beleza, o enfoque vicioso dos meios de comunicação que insistem na malícia nas telenovelas. Censura, com inesperada independência da parte de um batista, os pastores e padres, inculcadores da malícia e da nudofobia.

Com acerto, ele insiste na dissociação (fundamental no etos nudista) entre nudez e luxúria; como cristão, consigna a natureza do corpo como obra divina e, portanto, merecedora de admiração e de aceitação ao invés de vergonha, em qualquer das suas partes, expostas ou veladas; expõe a frivolidade da sobrevalorização dos indumentos e o engano de julgar-se ao próximo pela aparência do seu vestuário, denuncia o erro pedagógico dos pais que incutem nos seus filhos o pudor, denuncia o puritanismo (como ostentação de falsa moralidade), valoriza a sexualidade feminina, verbera o etos sexista dos homens que consideram as mulheres como objetos sexuais, exorta os juristas a que reconheçam a licitude da nudez integral em público, apela aos meios de comunicação para que apresentem a nudez com naturalidade, ao invés de velaram-na e conotarem-na com a libido.

A nudez de Cristo na cerimônia de lava-pés, a indignidade moral dos pregadores religiosos brasileiros coevos, a revolução de costumes dos anos de 1960 e o encaretamento deles nos anos de 1990; a palavra do mais tarde João Paulo II, acolhedora da nudez natural; a passagem do evangelho de Tomé em prol da nudez, a inocência de ver-se o nu, a profissão de fé adamita, a nudação como vontade divina; a exposição do pênis, fora de assédio sexual, como desejo da divindade; a hermenêutica tendenciosa da Bíblia, operada pelos cabecilhas evangélicos; a prostituição, a moralidade e a sexualidade, a figura de Satanás; a mentalidade especiosa de que é mister proteger as crianças de riscos imaginados pelos preconceitos dos adultos, a chamada erotização da infância, a opinião alheia como prisão do indivíduo, a moralidade feminina como equivalente ao encobrimento do bico das mamas, a análise do direito penal brasileiro e do código de recomendações do Ministério da Justiça no que diz com a nudez, a crítica à bancada evangélica do congresso brasileiro, a inocência da ereção, o benfazejo da educação sexual escolar, a atuação falaciosa dos juristas, são temas em que Pureza se detém, dentre outros inúmeros, com permanente lucidez, na perspectiva invariável de refutar o preconceito anti-nudez: irracional e estúpido à luz da convivência humana; afrontoso da verdade bíblica, à luz da interpretação das escrituras com pureza. Em seu lugar esforça-se pela renovação do etos em prol da descaracterização do nu e da sua consideração como estado natural e essencialmente moral do ser humano.

Um reparo: o tom catastrofista com que, reiteradamente, refere-se ao futuro da humanidade e da sociedade brasileira. Julgo exacerbada a sua percepção de que uma e outra dirigem-se para o colapso, cuja natureza, demais, não elucida.

Uma circunscrição: o diagnóstico de Pureza limita-se à realidade brasileira e não também à de países europeus, em que a cultura do corpo livre instaurou-se há gerações e décadas. Mesmo no Brasil, a gimnofobia e a religiosidade cristã não vigem unanimemente: predominam nas classes cultural e socialmente inferiores (C, D, E), à diferença dos estratos médio e alto, largamente alheios à religião (com crescente presença do ateísmo, máxime na geração sub-25) e, ao que se me antolha, abertos à naturalidade da nudez.

Pureza versa aspecto do etos e dos costumes de (parece-me) parcela muito específica do povo brasileiro, a evangélica, culturalmente inferior, volumosa, ocasionalmente assustadora pela sua primariedade e dócil, na sua desinstrução, à persuasão pró-nudofobia (como, aliás, a qualquer extravagância que se lhe apresente como verdade divina, veiculada pelos auto-intitulados porta-vozes de Jeová.).

As religiões dizem ao seu público o que ele é capaz de entender ou deseja ouvir. À primariedade dos ouvintes corresponde à dos seus predicadores: eis porque urge elevar-se o nível de instrução da massa brasileira, por forma a dotá-la de qualidade intelectual e autonomia de pensamento, que lhe permitam libertar-se da teologia, em prol do humanismo laico. O incremento da cultura intelectual e do espírito de realidade sempre concorreram para a secularização das mentes e dos costumes e, com eles, para a erradicação de preconceitos de matriz bíblica, de que a nudofobia constitui exemplo típico.

Se a instrução conduz à secularização e à pureza porque pugna Nelci Pereira de Sousa, também a refutação da gimnofobia, com argumentários racional e teológico, é valiosa na obtenção do mesmo resultado: aos laicos sensibilizarão ponderações racionais; aos religiosos, é desejável que persuadam demonstrações bíblicas, efeito pouco expectável, quando adversam a doutrina em que sempre militou a maioria dos clérigos.

Pureza expende razões em duas perspectivas: a da teologia, por interpretar a Bíblia em sentido adamita; a humana, em que associa nudez e inocência, corpo e naturalidade. Fundado em motivações racionais, contraria o preconceito pudente nas suas várias manifestações sociais. Cristãos e positivistas, teológicos e ateus, nele encontram argumentos de monta.

Abandonar-se a teologia mercê do seu descrédito; modificar-se a teologia mediante nova hermenêutica; racionalmente negar-se o pudor; também racionalmente valorizar-se a pureza: eis quatro vias em direção à naturalidade da nudez.

Apoio as quatro e prefiro as duas últimas, em que, juntamente com a nudofobia, emancipam-se mente e costumes do sobrenatural, a que se substituem o antropocentrismo e o senso de realidade.

O livro de Pereira de Souza merece a atenção dos formadores de opinião e dos formadores de pessoas. Na sociedade laica, é desejável que o leiam juristas, doutrinadores de direito penal e de direitos humanos, docentes e discentes de Direito, juízes, policiais, professores, pais, mães, homens, mulheres, filhos, governantes, diretores dos meios de comunicação. Nos quadros eclesiásticos, é expectável que o recusem os pastores e os respectivos ouvintes, com eventuais exceções.

À luz da legalidade, o autor observa, com verdade, inexistir obrigação de as pessoas vestirem-se nem crime de nudez: no direito brasileiro, é lícita e não proibida a nudez em público; não é impositivo as pessoas apresentarem-se vestidas em público. Andar nu em público exprime, entre nós, direito individual, malgrado o que detém a polícia quem se expõe nu em público, devido ao entendimento errado de que fazê-lo sujeita o visado a punição por crime de ato obsceno (previsto no artigo 233 do Código Penal) e que resulta da concepção errada de que nudez importa obscenidade.

A nudez não evoca, forçosamente, atividade sexual nem lhe é inerente conotação sexual. Ela consiste, apenas, em corpo isento de cobertura artificial, o que, por si só, é de todo inocente. Demais, estar despido não corresponde a ação, porém a estado, o que basta para tornar no mínimo problemática a detenção de nudistas em público por ato obsceno. A suposta inerência entre nudez e sexualidade pertence ao etos dos povos encobridores, a que somente se lhes depara a nudação no ato sexual, ao passo que a nudez doméstica, social e correntia (tal como praticada nos meios nudistas) comprova a dissociação entre desnudamento e sexualidade. Sobre isto, o artigo 233 veicula repressão da sexualidade, herança cristã já e crescentemente obsoleta na sociedade brasileira.

Da má compreensão daquele artigo advém a atuação equivocada da polícia e a falsa percepção, do público em geral, de que o direito brasileiro proíbe a nudez em público ou de que ela constitui crime, duplo engano que Nelci Pereira de Sousa desmistifica, em necessária lição para as pessoas em geral e para o pessoal jurídico, em particular. Promulgado em 1940, já tarda a revogação do anacrônico artigo (à exemplo da França, que aboliu o seu homólogo em 1994.).

Saúdo Pureza como livro oportuno, esclarecedor e útil, ciente da condição de batista do autor e sem que eu partilhe, minimamente, do etos teológico que ele parcialmente veicula. Ao contrário, ateu e Positivista, esta dupla condição confere-me isenção com que reconheço a plausibilidade da exegese religiosa de Nelci Rones Pereira de Sousa e o certeiro das suas análises antropocêntricas. Embora teológico, analisou e exortou, nas partes axiológica e sociológica, como se não o fosse: inspirado, em parte, pela religião, produziu obra predominantemente laica e superiormente educadora.

(Adquire-se em www.biblioteca24horas.com).

24/08/16

*sobre ARTHUR DE LACERDA

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