Largados e Pelados: ver o outro sem roupa o tempo todo acaba com a libido?

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Conviver sem roupa afeta nossa libido? Pensando que estamos acostumados a um estilo de vida em que só vemos outra pessoa pelada se for para ter relações sexuais (algumas vezes para tomar banho ou trocar de roupa), podemos cogitar que viver nu acaba com o mistério e a sedução.

Recentemente, uma participante do reality show Largados e Pelados, que passa todas as terças-feiras no Discovery Channel, afirmou que não conseguiu pensar em sexo ao ficar largada sem roupa em um lugar inóspito. "Eu perdi minha libido na primeira semana", afirmou Stacey Osorio.

No reality, os participantes são jogados em um ambiente selvagem e inóspito, tendo que encontrar água, comida, abrigo e sobreviver aos animais que os circundam --sendo que eles estão todos nus.

Mas o que acontece não é bem isso. Basta pensar nos índios, nos naturalistas ou até em mulheres que costumam fazer topless na praia. Mostrar as partes íntimas não anula o tesão e a libido. Tudo depende do contexto.

Se andar sem roupa se torna natural para você, a nudez acaba se desvinculando de pensamentos eróticos. Mas, igual acontece quando se está vestido, assim que existe uma provocação sensual, a libido aparece."

Mario Rodrigues Louzã Neto, do Instituto de Psiquiatria no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo)

De acordo com o médico, não é a roupa que distingue se teremos um momento sensual ou não, e sim os pensamentos, a provocação e principalmente a cultura.

Por exemplo, em alguns países é comum ter academias em que o chuveiro é misto. De início, quem não está acostumado com a situação pode ter a curiosidade de analisar os corpos de possíveis parceiros no ambiente. Mas ao notar que, culturalmente, os moradores lidam com a situação sem conotação erótica, o interesse sexual se desfaz e passa a ser natural ver todo mundo pelado.

O que não significa que se em algum momento tiver uma piscadinha, uma insinuação, uma cantada, a situação não pode mudar de figura. "Nós aprendemos a nos adequar a culturas e a entender quais circunstâncias aceitam atitudes erotizadas. E é a provocação que desperta a libido, não a roupa ou a falta dela", diz Mario.

No Brasil a nudez está culturalmente ligada a julgamentos sexuais. O conservadorismo e machismo fazem com que pouca ou nenhuma roupa tenha um apelo sexual. "As reações sempre serão determinadas pela cultura. Se no RJ uma mulher fizer topless na praia chamará atenção e será assediada. Na mesma cidade, se a mesma mulher fizer topless no sambódromo durante o carnaval, acharemos normal e não veremos o contexto sexual", explica Mário.

"As situações dramáticas são diferentes", explica Mario. "Nosso organismo estabelece prioridades. Estando em situação de sobrevivência a busca por comida e abrigo, por exemplo, ganham prioridade". O organismo faz escolhas para se manter vivo e deixa de lado o que não for vital, como os instintos sexuais.

É claro que o programa discute sobrevivência e não erotismo, por isso os participantes deixam de pensar em sexo. "O foco nas habilidades de superação me faz até questionar a decisão da TV de usar bolinhas pretas para cobrir as partes íntimas dos participantes. Não faz sentido nenhum usar o recurso já que tanto quem assiste quanto quem participa não relaciona o conteúdo com erotismo", completa Mário.

Também é importante citar que há a influência da exposição do corpo -- seja entre o grupo ou na televisão. "Quando estamos habituados à sociedade tradicional, pode existir uma queda na libido no momento em que a imagem do corpo é compartilhada por muita gente", diz Cláudio Bertolli Filho, do departamento de Ciências Sociais da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Segundo o antropólogo, a sociedade tem uma questão muito forte e enraizada de monogamia e exclusividade. "Se aquele corpo é muito mostrado, compartilhado, deixa de ser exclusivo e pode perder parte do encanto. Deixar o corpo a mostra 24h por dia pode acabar afetando na sedução".

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