O Naturismo e a Evasão Feminina

É visível o desequilíbrio de gênero dentro da filosofia naturista hoje no Brasil

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Inicialmente cabe uma ressalva, pois não se pode garantir que haja uma evasão das mulheres no mundo naturista. Pode ser que essa impressão abstraída dos ambientes naturistas, mais nítida em áreas públicas, seja originária de uma maior permissividade à presença masculina desacompanhada de companhia feminina, observada nos últimos tempos.

O fato é que tem sido gritante a insatisfação geral de frequentadores com o volume altíssimo de homens nas praias naturistas do Brasil. Antes adstritas à praia de Abricó, vê-se hoje essas mesmas queixas sendo estendidas a todas as demais. A verdade é que, de fato, está havendo um grande desequilíbrio entre homens e mulheres nesses espaços, dando-se a impressão de que a filosofia passou a ser direcionada exclusivamente para o mundo masculino, com forte presença homossexual.

Trata-se de um assunto assaz polêmico, posto que já foi objeto de muita discussão dentro de grupos das redes sociais, chegando à direções das entidades que cuidam do naturismo no país, sem contudo chegar a um denominador comum, sobre qual o formato apropriado que abarcasse o interesse do bem comum da filosofia.

Mas é cediço que essas associações parecem dar maiores atenções às queixas masculinas, representadas pelo estafe de solteiros, casados que não conseguem convencer suas famílias a serem naturistas e homossexuais do sexo masculino. As alegações dessas categorias reportam sempre ao teor constitucional de igualdade, da vedação de discriminação por sexo ou do direito de “ir e vir”.

Entretanto, para adentrar o assunto, não se pode deixar de buscar outros princípios constitucionais que necessitam ser evocados para desobstruir a injustiça que se comete ao optar pelo cumprimento dos valores que atendem apenas a um grupo, diga-se de passagem, o mais privilegiado entre os dois sexos, até porque há de se observar falhas absurdas nas avaliações do princípio da igualdade.

Não se pode falar em igualdade de gênero sem arregimentar todos os estudos históricos da desigualdade milenar existente entre o homem e a mulher. É indiscutível que, ao longo do tempo, em face do formato familiar patriarcal, deu-se a mulher uma posição bastante inferior, sobretudo na atividade sexual, fazendo-se, desde a Idade Média, uma deterioração da moral feminina pelo simples fato da exposição de seu corpo. A Igreja Católica ao se tornar hegemônica no planeta, por meio de domínio sobre o Império Romano, estabeleceu que o corpo feminino é o grande gerador das mazelas sexuais do planeta, cujo conceito vigora até os dias atuais.

Razão porque é de profunda tristeza ver dirigentes naturistas aderindo a um conceito putrefato de igualdade e de discriminação, quando de fato quem é totalmente discriminada no mundo naturista é exatamente a mulher. Quem trabalhou dezenas de anos dentro de áreas naturistas fazendo o seu controle, sabe bem que o interesse de homens heterossexuais, ou pelo menos a sua esmagadora maioria, no naturismo é ver mulheres nuas, fruto exatamente desse padrão midiático e social de que o interesse masculino tem de ser direcionado para o desejo do corpo feminino. Quem discorda dessa ideia está totalmente fora da realidade do naturismo, caminha pelas vias da maldade ou simplesmente desenvolve defesa em interesse próprio.

Nesse diapasão, não se pode falar em igualdade entre gêneros quando se envolve os aspectos da nudez, posto que o machismo arraigado pelos séculos de patriarcalismo passou a tratar de forma diferente a nudez feminina da masculina, trazendo à mulher uma vulnerabilidade extremamente acentuada, quando o seu corpo é generalizada mente objeto de cobiça masculina e de desejo sexual. Trata-se de condicionamento induzido pela própria mídia, a qual traz no corpo feminino o grande referencial de comércio sexual, embutido nas suas campanhas publicitárias, formatando padrões de beleza que servem para enriquecer suas produções cenográficas e trazendo ao consciente masculino apelo de sexualidade.


Bárbara Eugênia, cantora e compositora
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Constitucionalmente, os preceitos que pregam a igualdade e a não discriminação por sexo, tem alguns contrapontos. Em primeiro lugar o amparo constitucional contra a discriminação por sexo tem um único alvo: os homens, que são de fato os discriminadores, sendo as mulheres as grandes vítimas vulneráveis a essas discriminações, transfigurando a constituição no grande instrumento de tutela de grupos socialmente vulneráveis, nos quais as mulheres integram. Em segundo lugar a igualdade na constituição é bem clara quando mostra que há de se praticar a igualdade para os iguais e a desigualdade para os desiguais. Não há a menor dúvida de que, no caso, há profunda desigualdade entre os gêneros masculino e feminino, mormente quando se fala em sexualidade, nudez e valorização do corpo.

Entre todos os segmentos sociais o único que não tem política de proteção às mulheres contra o machismo é exatamente o naturista, pelo menos de certo tempo para cá. Ao contrário, o que vemos atualmente são entidades cheias de dirigentes totalmente preocupados e engajados na proteção dos homens desacompanhados ou do movimento homossexual masculino. Existindo inclusive associações especializadas em fornecer carteirinha naturista (passaporte naturista, que deveria ser fornecido a pessoas comprovadamente naturista) exclusivamente para homens desacompanhados, e que têm histórico de desrespeito com mulheres dentro das praias, além de outras entidades que fornecem esse mesmo documento a quem simplesmente assina uma de suas revistas ou paga acesso a portais de internet. Circunstância que tem causado profundo constrangimento à frequência regular das mulheres, em face das enormes questões de assédio ou de olhares indecentes acontecidos maciçamente, ou mesmo de atitudes sexualmente ostensivas praticadas nas nossas praias, como a masturbação corriqueira nesses locais. Sem contar que homens que levam as suas esposas ou famílias para esses ambientes, vêm afastando-se desse convívio, exatamente pelos mesmos motivos.

Dessa forma o naturismo acaba se tornando em um ambiente de homens, homossexuais e de casais à procura de sexo, desconfigurando as premissas básicas da sua instituição e defesa, qual sejam aquelas que desmistificam a nudez do sexo e estimulam a prática familiar.

Nenhuma praia tem regulamento que impeça a presença de homossexuais especificamente. Não há, portanto, dentro do naturismo qualquer rejeição à classe homossexual. Entretanto a presença de homossexuais masculinos nas praias causam enormes problemas por dois motivos básicos: a) não há uma forma eficaz de identificação homossexual, o que faz muitos homens (centenas de casos já acontecidos) fingirem ser homossexuais e adentrarem as praias para fazer coisas inadequadas que mancham a imagem do naturismo; e b) há um bom percentual de homossexuais, destoantes do comportamento da maioria, que não têm o devido comportamento naturista, conforme pode ser constatado nas áreas, e, uma vez dentro dos espaços, procuram cantos para uso indiscriminado de atitudes de caráter sexual, desvirtuando os preceitos da filosofia.

Em ambos os casos há enormes dificuldades de se tomar medidas que evitem a permanência volumosa dessas pessoas. A solução apresentada, que não erradica o problema, mas diminui bastante as incidências, facilitando o controle, é usar o critério geral que evita a presença indiscriminada de homens desacompanhados de pessoas do sexo feminino. Assim resolve-se o problema maior, referente aos homens que adentram as praias com interesses escusos de perturbar a presença de mulheres, e evita-se a acusação de discriminação exclusivamente pela orientação sexual. Até porque, se não se é adequado a proibição de acesso de pessoas pela sua condição de homossexualidade, também não é adequado adotar-se privilégio a certas pessoas de uma mesma classe (sexo masculino) exclusivamente por orientação sexual.

A praia de Tambaba/PB é a única que tem uma Lei Municipal que aborda o problema, mas ultimamente as associações que tomam conta da praia, além da própria Prefeitura Municipal, vêm negligenciando a referida Lei, sob a alegação de inconstitucionalidade, como se elas tivessem o poder de declarar essa situação, tomando o lugar do Supremo Tribunal Federal (STF).

Aquelas desculpas costumeiras de “direito de ir e vir” e de que “não se pode barrar acesso de homossexuais” são absolutamente insubsistentes. Em primeiro lugar nenhum direito individual é absoluto. O direito de “ir e vir” está subordinado a regras admitidas pela lei e pelos costumes, razão porque ninguém pode sair pelas ruas em estado de nudez, porque se é o costume andar vestido. Assim, para exercer o direito de ir e vir dentro de Tambaba há de se respeitar a Lei local, pelo menos até que o STF a declare inconstitucional.

Em relação aos homossexuais, a Lei não veda a entrada de homossexuais. Ela não tem citações nesse sentido. Por isso, as pessoas são barradas por sua condição de sexo masculino e não por ser homossexuais, porque nesse momento a sua orientação sexual não tem qualquer importância. Portanto não há incompatibilidade constitucional de discriminação a classes vulneráveis.

É claro que se podem admitir algumas exceções. Existem inúmeros homens desacompanhados que são de fato naturistas tradicionais, com serviços prestados ao naturismo, que muitas vezes podem ter se separado de suas famílias criadas dentro do naturismo, possuidores de bom comportamento, comprovados pelas associações a que pertencem, e que possuem o devido documento para acesso. Não se vê dificuldades também na permissão de acesso ao par homossexual, caso eles consigam provar essa situação, unicamente pela apresentação de uma certidão de união estável, pois não se conhece outra forma de assegurar, com fidelidade, a condição de homossexualidade de um ser humano. Sendo inadequada, insubsistente, constrangedora e não se figura verdadeira qualquer forma de demonstração afetiva para essa constituição probatória.

Por fim é de se conclamar que os dirigentes de entidades naturistas nacionais ou locais estejam cientes dessas considerações no trato do problema, pois é visível o esvaziamento da atividade naturista, ou pelo menos o estancamento de seu crescimento, em face de problemas exatamente desse descuido que está havendo em fazer justiça da importância das mulheres dentro do naturismo, que não foi concebido para praticar privilégios a classes, mas para combater as injustiças até hoje permitidas contra um dos seus pilares.

ANDENU – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DEFESA DO NATURISMO

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